Iam desmontar a estufa abandonada e vender o metal como sucata. Quatro meses depois, os vizinhos pediam autorização para entrar

by banber130389
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O camião que levaria a estrutura metálica estava marcado para segunda-feira de manhã quando Inês Ferreira decidiu entrar uma última vez na velha estufa.

A porta abriu apenas até meio. A dobradiça inferior estava completamente enferrujada, e grossos ramos de videira tinham crescido através da armação, impedindo a passagem.

Inês conseguiu entrar de lado, com cuidado para não tocar nos vidros rachados.

No interior, quase não havia espaço para caminhar. As ervas chegavam-lhe à cintura, vários vasos estavam partidos e grandes placas de tinta verde soltavam-se da estrutura metálica.

Algumas chapas de vidro do telhado tinham desaparecido. Outras permaneciam deslocadas, presas apenas pelas extremidades. O chão estava coberto de folhas secas, terra húmida e pequenos fragmentos de vidro.

Inês queria apenas verificar se ainda restava alguma ferramenta aproveitável antes da demolição.

Contudo, ao puxar uma das trepadeiras, a luz da manhã atravessou subitamente toda a estufa. Apesar da sujidade, tornou-se possível distinguir a forma simétrica do telhado, a armação regular e a base baixa de tijolo.

Sob as ervas, apareceu ainda o contorno de um antigo caminho central também construído com tijolos.

— Miguel, vem cá um instante! — chamou ela.

O marido aproximou-se da porta, mas não entrou imediatamente.

— Pensei que já tínhamos decidido desmontar isto.

— Olha para a estrutura. Continua direita. E a base não tem grandes fendas.

Miguel observou as barras enferrujadas e os espaços vazios onde antes existiam vidros.

— Há mais painéis partidos do que inteiros.

— Os vidros podem ser substituídos. Uma estufa com esta estrutura é que nunca construiríamos de novo.

Nessa mesma tarde, cancelaram a recolha da sucata.

Inês e Miguel tinham comprado a casa seis meses antes, numa pequena localidade nos arredores de Guimarães. A construção principal era modesta, mas incluía um jardim comprido, protegido por uma vedação de madeira, com uma velha macieira e um caminho estreito de pedra.

A estufa situava-se no fundo do terreno.

Durante a primeira visita, o agente imobiliário descrevera-a como uma estrutura sem qualquer utilidade.

— Talvez ainda consigam receber algum dinheiro pelo ferro — comentou. — O resto são ervas e vidros perigosos.

Segundo os vizinhos, a estufa não era utilizada há pelo menos quinze anos. O antigo proprietário, o senhor Joaquim, cultivara ali tomates, ervas aromáticas e plantas jovens durante grande parte da vida.

Quando a idade deixou de lhe permitir cuidar do jardim, a estufa foi abandonada. Depois de uma tempestade partir vários vidros do telhado, as trepadeiras começaram a entrar pela armação.

Miguel planeava remover tudo e criar naquele local uma área relvada. Inês imaginava alguns canteiros elevados, mas também não acreditava que a velha estufa pudesse ser recuperada.

Uma análise mais atenta começou a mudar essa ideia.

A armação de aço pintada de verde-escuro apresentava muita ferrugem superficial. Ainda assim, apenas alguns elementos junto ao solo pareciam profundamente corroídos.

As colunas laterais, as travessas do telhado e os pequenos ornamentos da cumeeira continuavam firmes.

A base de tijolo também não tinha cedido. A argamassa desaparecera em várias juntas, mas a maioria dos tijolos mantinha-se em condições razoáveis.

Inês tirou fotografias e enviou-as a um serralheiro e a uma empresa de vidros.

As primeiras respostas não foram animadoras.

Um dos profissionais aconselhou a comprar uma estufa leve de alumínio. Outro explicou que a armação antiga poderia ser recuperada, mas apenas depois de retirar todo o vidro e tratar o metal por completo.

Por fim, António Serra, um serralheiro perto da reforma que conhecia estruturas antigas, aceitou visitar a propriedade.

António percorreu lentamente o exterior. Bateu em várias barras com uma pequena ferramenta, examinou as soldaduras e mediu o desvio das colunas.

— Não será um trabalho barato — avisou. — Mas a estrutura principal é mais resistente do que muitas estufas modernas. Não existe razão para a mandar para a sucata.

Para Inês, aquela frase bastou.

Os trabalhos começaram com a remoção de toda a vegetação.

Inês e Miguel utilizaram luvas grossas, óculos de proteção e calçado fechado, pois havia pedaços de vidro escondidos entre as ervas.

Separaram os vasos ainda utilizáveis e retiraram as plantas secas. As placas de vidro intactas foram numeradas antes de serem removidas da armação.

Os painéis rachados e os fragmentos soltos foram colocados em recipientes adequados para serem transportados em segurança.

Só depois perceberam a verdadeira dimensão das perdas.

Menos de metade dos vidros originais podia voltar a ser utilizada.

Esse foi o primeiro grande aumento no orçamento.

O vidraceiro recomendou vidro hortícola cortado segundo as medidas de cada abertura. As placas de policarbonato seriam mais leves e económicas, mas alterariam completamente o aspeto da construção.

Inês e Miguel decidiram conservar os vidros antigos que ainda estavam seguros e completar os restantes espaços com painéis novos.

Quando toda a armação ficou exposta, António conseguiu examinar o metal com mais rigor.

Grande parte da ferrugem era apenas superficial. No entanto, duas barras horizontais junto à base tinham perdido espessura por dentro.

Não bastava limpá-las e aplicar tinta.

Os segmentos deteriorados foram cortados e substituídos por perfis de aço com a mesma dimensão. Uma travessa do telhado também teve de ser trocada.

A porta torta foi retirada e levada para a oficina, onde recebeu novas dobradiças e uma correção completa do enquadramento.

Durante vários dias, Inês e Miguel trabalharam com escovas metálicas e pequenos raspadores. Nas zonas mais delicadas, evitaram ferramentas agressivas para não danificar os perfis estreitos.

Depois da limpeza, o metal recebeu um primário anticorrosivo. Seguiram-se duas camadas de tinta verde-escura, muito semelhante à cor antiga encontrada nas partes protegidas da estrutura.

Enquanto o tratamento avançava, surgiu outro problema.

Depois de uma noite de chuva intensa, a água ficou acumulada dentro da estufa. O caminho central de tijolo estava relativamente seco, mas havia pequenas poças de lama dos dois lados.

O terreno inclinava ligeiramente na direção da construção, conduzindo toda a água para junto da base.

Se nada fosse feito, as peças metálicas novas voltariam a enferrujar. As raízes das plantas também ficariam permanentemente encharcadas.

Por isso, parte do caminho de tijolo teve de ser levantada.

Debaixo dele não existia uma camada drenante adequada. Os tijolos tinham sido colocados quase diretamente sobre solo compacto e húmido.

Foi necessário abrir uma vala estreita, instalar um tubo de drenagem e criar uma camada de brita. Os tijolos antigos foram limpos e recolocados com uma inclinação suave.

As juntas da base também foram reparadas, mantendo as pequenas irregularidades dos tijolos originais.

No final do segundo mês, a estufa ainda parecia uma obra.

Muitos painéis continuavam vazios. A armação apresentava simultaneamente zonas de metal limpo, tinta antiga e primário avermelhado. No jardim acumulavam-se escadas, caixas de ferramentas e suportes com placas de vidro.

Dona Teresa, uma vizinha que acompanhava os trabalhos do outro lado da vedação, acabou por perguntar:

— Têm a certeza de que vale a pena tanto esforço? O senhor Joaquim também deixou de a usar quando os vidros começaram a partir-se todos os invernos.

Teresa lembrava-se de o antigo proprietário iniciar as sementeiras ainda em fevereiro. Muito antes de aparecerem tomates nos mercados locais, já ele tinha pequenas plantas alinhadas dentro da estufa.

— Ele costumava dizer que até a terra cheirava de forma diferente ali dentro — acrescentou.

Inês nunca mais esqueceu essa frase.

No terceiro mês começou a instalação dos painéis.

Cada vidro foi medido e colocado individualmente. As placas antigas apresentavam pequenas ondulações que refletiam a luz de forma diferente das novas.

Essa diferença não incomodou os proprietários. Pelo contrário, ajudava a conservar a sensação de que a estufa tinha uma história.

As aberturas de ventilação no telhado também foram recuperadas. Uma delas recebeu um sistema simples que se abria automaticamente quando a temperatura subia.

Assim, o calor podia sair mesmo quando Inês e Miguel não estavam em casa.

A porta regressou da oficina com novas dobradiças, um puxador restaurado e a armação original endireitada.

Quando o último vidro foi instalado, a mudança já era evidente.

A luz atravessava novamente toda a estrutura. O verde-escuro destacava as linhas do telhado e a base de tijolo, agora limpa, recuperava o seu tom quente.

Só então começou a organização do interior.

Inês não queria transformar a estufa numa sala decorativa onde quase não existissem plantas. O espaço tinha de continuar a cumprir a função para a qual fora construído.

Ao longo dos dois lados foram instalados canteiros baixos de madeira. O corredor central de tijolo permaneceu livre, permitindo passar com um regador ou com um pequeno carrinho.

Num dos lados plantaram tomateiros, pimentos, alfaces e manjericão. No outro ficaram o alecrim, o tomilho, os gerânios e as capuchinhas.

No fundo da estufa, Inês colocou um jovem limoeiro dentro de um vaso de terracota.

Ainda restou espaço para uma pequena mesa redonda e duas cadeiras coloridas que não combinavam entre si. O casal comprara-as numa feira de velharias, e Miguel tratara de as lixar e pintar.

Uma prateleira estreita recebeu vasos pequenos e ferramentas de jardinagem. A água da chuva passou a ser recolhida num depósito, ligado a um sistema simples de rega gota a gota.

Não instalaram móveis dispendiosos, iluminação sofisticada ou aquecimento complexo.

O resultado continuou a ser uma verdadeira estufa.

Mesmo assim, as despesas ultrapassaram muito a previsão inicial.

Inês e Miguel esperavam gastar cerca de quatro mil euros. A substituição do vidro, os novos segmentos metálicos e a drenagem fizeram o total aproximar-se dos oito mil.

Conseguiram reduzir parte dos custos realizando eles próprios a limpeza, a pintura, a colocação dos tijolos e a construção dos canteiros.

No final do quarto mês, as últimas ferramentas desapareceram do jardim.

A armação verde estava novamente uniforme, os painéis de vidro refletiam o céu e a base de tijolo mantinha a aparência antiga. A porta abria sem esforço e as janelas de ventilação funcionavam corretamente.

Dos dois lados do corredor central, as plantas já cresciam com vigor.

Inês colheu o primeiro tomate maduro em meados de julho.

Nessa tarde, Miguel ajustava o suporte de um ramo do limoeiro, enquanto Inês regava as ervas aromáticas. Dona Teresa apareceu novamente junto à vedação.

Desta vez, não perguntou por que motivo não tinham demolido a estufa.

— Posso entrar para ver? — perguntou.

Alguns dias depois, apareceram outros dois vizinhos. Mais tarde, uma família do fim da rua pediu autorização para mostrar a estufa às crianças.

Os visitantes permaneciam no caminho central, observando os tomateiros, as flores e os pequenos limões. Muitos não acreditavam que aquela fosse a mesma estrutura tomada pelas ervas poucos meses antes.

Dona Teresa ficou mais tempo do que todos os outros.

Caminhou até ao fundo e passou a mão por uma das antigas barras de metal.

— O senhor Joaquim ficaria feliz se pudesse ver isto — disse em voz baixa. — Eu pensava que a estufa acabaria por desaparecer.

Inês e Miguel não construíram um jardim de inverno luxuoso. Não ampliaram a estrutura nem a converteram numa divisão sem qualquer ligação à jardinagem.

Apenas conservaram aquilo que ainda estava sólido, repararam o que se tinha deteriorado e devolveram à estufa a função original.

Atualmente, Inês bebe muitas vezes ali o café da manhã. Miguel rega as plantas depois do trabalho, e aos fins de semana os dois sentam-se por alguns minutos junto à pequena mesa.

Os vizinhos continuam a perguntar, de vez em quando, se podem entrar.

Quatro meses antes, ninguém queria salvar a estufa. Faltavam apenas alguns dias para ser desmontada e vendida como sucata.

Ela não sobreviveu porque os proprietários conseguiram imaginar imediatamente o resultado final.

Sobreviveu porque, durante um breve momento de sol, Inês conseguiu olhar para além da ferrugem, dos vidros sujos e das ervas.