A vizinha batia no radiador todas as noites, embora o nosso apartamento estivesse vazio. Um dia cheguei sem avisar e ouvi a voz do meu marido atrás da porta.

by banber130389
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Na primeira vez que a dona Celeste me telefonou para dizer que alguém andava a fazer barulho no nosso apartamento vazio, pensei que estivesse a confundir os andares.

— Marta, eu sei perfeitamente de onde vem o som — insistiu ela. — É da vossa sala. Todas as noites, por volta das dez e meia.

Olhei para o relógio do escritório em Lisboa e quase me ri.

O apartamento ficava em Setúbal, num prédio antigo perto da Avenida Luísa Todi, e estava vazio havia quase três meses. Eu e o meu marido, Rui, tínhamos decidido alugá-lo depois de ele aceitar um trabalho em Lisboa. Enquanto procurávamos inquilinos, deixáramos lá apenas alguns móveis, caixas e uma mesa antiga da minha mãe.

— Dona Celeste, não está lá ninguém — respondi. — Nem eu nem o Rui temos ido lá durante a semana.

Do outro lado, ela ficou em silêncio durante alguns segundos.

— Então alguém tem chave.

A frase incomodou-me mais do que eu queria admitir.

Rui foi o primeiro a dizer que a vizinha estava a exagerar.

— Ela sempre foi assim — disse, enquanto cortava pão na cozinha do nosso apartamento arrendado em Odivelas. — Lembras-te quando se queixou da máquina de lavar às três da tarde?

— Não é a mesma coisa.

— Marta, o apartamento está vazio.

— Foi exatamente isso que ela disse.

Ele sorriu.

— Talvez tenhamos fantasmas.

Não gostei da forma como evitou olhar para mim.

Mas naquele momento não pensei em traição, nem em segredos, nem em nada parecido. Pensei apenas que talvez o nosso agente imobiliário tivesse entrado no apartamento para mostrar a casa a algum interessado.

Telefonei-lhe no dia seguinte.

— Não entro lá desde terça-feira passada — disse-me o agente. — E nunca à noite.

Perguntei se mais alguém tinha uma cópia da chave.

— Só vocês e eu.

Quando contei isso a Rui, ele encolheu os ombros.

— Então a senhora está a ouvir outra coisa.

Durante uma semana tentei esquecer.

Até que a dona Celeste ligou outra vez.

Desta vez parecia irritada.

— Ontem bati no radiador três vezes. E alguém bateu de volta.

Senti um arrepio nos braços.

— Tem a certeza?

— Marta, eu não tenho oitenta anos para não saber distinguir canos de uma resposta.

Ela tinha setenta e dois.

E uma memória mais afiada do que a minha.

Perguntei a que horas acontecera.

— Dez e quarenta.

Naquela noite, Rui estava comigo no sofá.

Ou pelo menos pensei que estivesse.

Só depois me lembrei de que entre as dez e as onze ele tinha descido, dizendo que ia comprar água e tabaco.

Demorara quase cinquenta minutos.

Quando lhe perguntei onde tinha ido, respondeu:

— Ao supermercado da rotunda.

Ficava a oito minutos a pé.

Não disse nada.

Nos dias seguintes comecei a observar pequenas coisas.

O telemóvel dele estava sempre virado para baixo.

Passou a levar o aparelho para a casa de banho.

Duas vezes saiu para atender chamadas na varanda.

Quando perguntei quem era, respondeu “trabalho”.

Rui trabalhava numa empresa de manutenção industrial. As chamadas fora de horas não eram impossíveis.

Mas algo começou a incomodar-me.

Não era uma prova.

Era uma sequência.

A dona Celeste ligou uma terceira vez numa quinta-feira.

— Hoje não vou bater — disse. — Quero ver se eles começam primeiro.

“Eles.”

A palavra ficou presa na minha cabeça.

— Porque disse “eles”?

Ela hesitou.

— Porque ontem ouvi duas vozes.

Fiquei de pé junto à janela do escritório.

— Homem e mulher?

— Acho que sim.

O estômago apertou-se.

— Conseguiu perceber o que diziam?

— Não. Só ouvi passos e depois alguém arrastou uma cadeira.

Naquela noite perguntei diretamente ao Rui:

— Tens ido a Setúbal?

Ele levantou os olhos do prato.

— O quê?

— Ao apartamento.

— Não.

A resposta veio demasiado depressa.

— Tens a certeza?

— Marta, que pergunta é essa?

— A dona Celeste continua a ouvir pessoas lá dentro.

Ele pousou o garfo.

— Já te disse. Essa mulher implica com tudo.

— Diz que ouviu duas pessoas.

Rui respirou fundo.

— E agora vais acreditar numa vizinha em vez de mim?

Foi a primeira vez que transformou a pergunta numa acusação contra mim.

Isso deixou-me mais desconfiada do que qualquer atraso ou telefonema escondido.

Na manhã seguinte, decidi não lhe dizer que sairia mais cedo do trabalho.

Tínhamos combinado jantar em Lisboa. Rui pensava que eu estaria no escritório até às seis.

Às três e vinte, apanhei o comboio para Setúbal.

Durante a viagem tentei convencer-me de que era ridículo.

Talvez encontrasse o apartamento vazio.

Talvez pedisse desculpa ao meu marido à noite.

Talvez a dona Celeste tivesse realmente confundido os sons.

Quando cheguei ao prédio, eram quatro e meia.

Subi sem usar o elevador.

No segundo andar encontrei a dona Celeste a abrir a porta de casa com um saco de compras.

Quando me viu, arregalou os olhos.

— Não lhe disseste que vinhas, pois não?

Abanei a cabeça.

Ela aproximou-se.

— Então sobe devagar.

— Porquê?

A expressão dela mudou.

— Porque há alguém lá dentro agora.

Senti o sangue fugir-me do rosto.

Subi o último lance de escadas quase sem respirar.

A porta do apartamento estava fechada.

Fiquei parada no patamar.

A princípio não ouvi nada.

Depois veio um som.

Uma cadeira a arrastar no chão.

Exatamente como a dona Celeste tinha descrito.

Aproximei-me.

E ouvi uma voz masculina.

Baixa.

Calma.

Conhecia aquela voz melhor do que qualquer outra.

Era Rui.

A minha mão ficou suspensa sobre a fechadura.

Então ouvi-o dizer:

— Ela não pode descobrir isto agora.

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Fiquei imóvel.

Dentro de casa, uma mulher respondeu.

Não consegui perceber as palavras.

Só o tom.

Baixo, nervoso.

Depois Rui disse:

— Eu resolvo. Mas não podemos continuar assim por muito mais tempo.

Foi aí que introduzi a chave.

A fechadura fez um clique.

Lá dentro, tudo ficou em silêncio.

Abri a porta.

Rui estava na sala.

Ao lado dele encontrava-se uma mulher que eu nunca tinha visto.

Terá uns trinta e cinco anos. Cabelo escuro preso num rabo de cavalo, calças de ganga, camisola verde.

Sobre a mesa havia duas chávenas de café, papéis e um portátil.

Durante alguns segundos ninguém falou.

Rui ficou branco.

— Marta…

Olhei para a mulher.

— Quem é ela?

A mulher levantou-se.

— Eu posso explicar.

— Perguntei ao meu marido.

Rui passou a mão pelo rosto.

— Chama-se Inês.

— Isso não responde.

— Marta, não é o que estás a pensar.

Quase ri.

— É sempre essa frase, não é?

Olhei em volta.

Não havia garrafas de vinho.

Não havia roupa espalhada.

Não havia nada que parecesse um encontro amoroso.

Mas também não havia qualquer explicação inocente para o meu marido estar escondido num apartamento vazio com uma mulher.

— Há quanto tempo vêm aqui?

Rui respirou fundo.

— Algumas semanas.

— Algumas?

Inês interveio.

— Desde o fim de julho.

Era setembro.

Olhei para Rui.

— Dois meses.

— Deixa-me explicar.

— Explica.

Ele olhou para Inês.

Ela baixou os olhos.

— Não aqui.

— Aqui mesmo.

Rui caminhou até à janela.

— A Inês trabalhava comigo.

— Trabalhava?

— Foi despedida em junho.

— E?

— E descobriu coisas na empresa.

A minha raiva hesitou por um instante.

— Que coisas?

Rui puxou uma cadeira.

— Senta-te.

— Não quero sentar-me.

Inês fechou o portátil.

— A empresa onde o Rui trabalha falsificou relatórios de segurança durante quase dois anos.

Fiquei calada.

Rui continuou:

— Algumas máquinas foram dadas como inspecionadas sem terem sido verificadas.

— O que é que isso tem a ver com vocês se encontrarem escondidos na nossa casa?

— Porque eu descobri que o meu chefe sabia.

Inês abriu uma pasta.

Lá dentro havia fotografias, cópias de relatórios e folhas com datas.

— Eu era responsável por parte da documentação — explicou. — Quando me recusei a alterar mais relatórios, fui despedida por “quebra de confiança”.

Olhei para Rui.

— E tu?

— Eu fiquei.

— Porquê?

— Porque precisava de acesso aos ficheiros.

Demorei alguns segundos a perceber.

— Estás a copiar documentos da empresa?

— Estou a guardar provas.

— Em nossa casa?

— Não podia fazê-lo no computador de Lisboa. Nem no trabalho.

— E porque não me disseste?

Ele hesitou.

Essa hesitação voltou a despertar a raiva.

— Porque não querias que eu soubesse?

— Porque recebi uma ameaça.

O silêncio mudou completamente.

Rui abriu uma gaveta da mesa e retirou um envelope.

Dentro havia uma folha impressa.

“Não metas a tua família nisto.”

Senti um frio na nuca.

— Quando recebeste isto?

— Há três semanas.

— E continuaste?

— Sim.

— Sem me dizer nada?

— Se soubesses, ias tentar impedir-me.

— Claro que ia!

A minha voz ecoou pelo apartamento.

— Rui, alguém ameaçou a nossa família e tu decidiste trazer esta mulher para uma casa que ainda está em nosso nome e trabalhar aqui às escondidas?

Inês levantou-se.

— A culpa não é dele.

Olhei para ela.

— Não te estou a culpar.

— Devia. Fui eu que o procurei.

Ela abriu o portátil.

— Quando fui despedida, mandei documentos para mim própria. Mas não eram suficientes. Precisávamos dos registos de manutenção.

— “Precisávamos”?

— Quero levar isto à Autoridade para as Condições do Trabalho e ao Ministério Público.

Rui acrescentou:

— Há equipamentos que continuam a operar sem revisão real.

— E alguém pode morrer — disse Inês.

Fiquei a olhar para os dois.

Tudo aquilo parecia absurdo.

Mas os documentos pareciam reais.

Havia fotografias de máquinas, assinaturas repetidas, datas que não batiam certo.

Então lembrei-me da frase que tinha ouvido antes de entrar.

— “Ela não pode descobrir isto agora.”

Rui fechou os olhos.

— Referia-me a ti.

— Pois.

— Porque amanhã vamos entregar tudo.

— Amanhã?

— Sim.

— E pretendias contar-me quando? Depois?

Ele não respondeu.

Isso magoou-me mais do que esperava.

Não havia amante.

Mas havia uma vida paralela.

Segredos.

Mentiras.

Viagens a Setúbal.

Chamadas escondidas.

E tudo fora decidido sem mim.

A dona Celeste bateu na porta aberta.

— Posso entrar?

Virou-se para Rui.

— Então era o senhor.

Rui pareceu envergonhado.

— Era.

Ela cruzou os braços.

— E eu a pensar que eram estudantes.

Apesar da tensão, Inês soltou uma pequena gargalhada.

Foi tão inesperado que eu também quase sorri.

Mas a dona Celeste não tinha acabado.

— Só há uma coisa que eu não percebo.

— O quê? — perguntou Rui.

— Se estavam a esconder-se, porque batiam no radiador?

Rui olhou para Inês.

Inês olhou para Rui.

— Nós nunca batemos.

A vizinha franziu a testa.

— Bateram, sim.

— Não — respondeu Rui. — Nunca.

Ninguém falou durante alguns segundos.

A dona Celeste apontou para o radiador da sala.

— Todas as noites.

Aproximei-me.

O prédio era antigo, com canalização vertical a atravessar vários andares.

Rui tocou no metal.

Nesse momento ouviram-se três pancadas secas.

Toc.

Toc.

Toc.

Vieram do interior do radiador.

A dona Celeste levantou as sobrancelhas.

— Estão a ver?

Rui bateu uma vez.

Dois segundos depois, ouvimos duas pancadas de resposta.

Mas não vinham da casa da dona Celeste.

Vinham de cima.

Subimos até ao quarto andar.

A porta do apartamento de cima pertencia ao senhor Álvaro, um homem de sessenta e poucos anos que vivia sozinho.

Rui bateu.

Nada.

Bateu outra vez.

Ouviu-se movimento lá dentro.

Finalmente a porta abriu alguns centímetros.

O homem pareceu assustado ao ver-nos.

— Está tudo bem? — perguntei.

— Sim.

A dona Celeste apontou para dentro.

— É o senhor que anda a bater nos canos?

Ele ficou vermelho.

— Eu…

Acabámos por descobrir uma coisa muito mais simples.

E triste.

O senhor Álvaro tinha sofrido um AVC leve meses antes e começara a ter episódios de ansiedade à noite. Quando ouvia sons nos tubos, batia para saber se havia alguém acordado no prédio.

A dona Celeste respondia.

E ele respondia de volta.

Enquanto isso, ela associava os ruídos ao nosso apartamento.

O mistério do radiador estava resolvido.

O do meu casamento, não.

Naquela noite voltei a Lisboa sozinha.

Rui quis acompanhar-me.

Não deixei.

Precisava de pensar.

No dia seguinte, ele e Inês entregaram a documentação às autoridades e a um advogado.

Durante as semanas seguintes houve inspeções na empresa.

Dois responsáveis foram suspensos internamente e vários equipamentos foram retirados temporariamente de serviço.

Rui acabou por sair da empresa pouco depois.

Mas o que ficou entre nós demorou mais tempo a reparar.

Uma noite, já quase um mês depois, perguntei:

— Se eu nunca tivesse ido a Setúbal, quando me contarias?

Ele demorou a responder.

— Depois de entregar os documentos.

— Isso não é uma data.

— Eu sei.

— Tinhas medo de me pôr em perigo ou medo de eu dizer que não?

Rui olhou para mim.

— Das duas coisas.

Foi a primeira resposta completamente sincera que me deu desde o início.

— E escolheste por mim.

— Sim.

Não tentei transformar aquilo numa discussão enorme.

Só disse:

— Nunca mais faças isso.

Ele assentiu.

— Nunca mais.

Vendemos o apartamento de Setúbal quatro meses depois.

A dona Celeste ficou triste.

Antes de entregarmos as chaves aos novos proprietários, fui despedir-me dela.

Ela apareceu com um prato de pastéis de laranja.

— Para a viagem.

— São quarenta minutos, dona Celeste.

— Então comem devagar.

Quando eu já estava a sair, ela chamou-me.

— Marta.

Virei-me.

— Não deixe de ouvir as pessoas só porque às vezes elas se enganam.

Sorri.

— Está a falar do radiador?

Ela abanou a cabeça.

— Estou a falar do resto.

Na altura não percebi completamente.

Só percebi meses depois.

Às vezes, o aviso pode estar errado e ainda assim levar-nos à verdade certa.

A dona Celeste enganara-se sobre quem batia nos tubos.

Mas se ela nunca tivesse telefonado, talvez eu nunca tivesse subido aquelas escadas sem avisar.

E nunca teria descoberto uma traição.

Porque Rui não me traía com outra mulher.

Traía-me com a ideia de que podia decidir sozinho que verdades eu era capaz de suportar.

E essa foi uma coisa muito mais difícil de perdoar.