Quando Gábor colocou a chave do apartamento sobre a mesa da cozinha, Eszter pensou que não poderia haver momento mais humilhante em seus dezessete anos de casamento.
Estava enganada.
— Não quero discutir — disse Gábor, sem ao menos tirar o casaco. — Já decidi. Vou me mudar.
Eszter estava ao lado da pia. Do lado de fora, uma chuva fria de novembro batia nas janelas do prédio em Buda, e o rangido do bonde na avenida Bartók Béla soava abafado.
O apartamento deles não era de luxo. Noventa e quatro metros quadrados, três quartos, uma pequena varanda e um escritório estreito que o pai de Eszter havia feito para eles anos atrás. Mas, há treze anos, aquele lugar era o lar deles. Foi ali que comemoraram aniversários, discutiram sobre quem havia esquecido de pagar o condomínio e planejaram, um dia, trocar os móveis da cozinha. Eszter acreditara, até aquela noite, que envelheceriam juntos ali.
— Você tem outra pessoa? — perguntou ela.
Gábor silenciou por alguns segundos.
— Tenho.
— Quem?
— Nóra.
Eszter pousou devagar o copo que segurava. Ela conhecia Nóra. Trabalhava com Gábor em uma empresa de desenvolvimento imobiliário. Tinha trinta e oito anos, era sempre elegante, sorridente e sabia surpreendentemente muito sobre a vida pessoal dele. Eszter já havia conversado com ela em dois eventos da empresa. No último jantar de Natal, Nóra até lhe dissera: “É raro ver um casamento assim. O Gábor sempre fala de você com tanto carinho.” Agora, a lembrança dava enjoo a Eszter.
— Há quanto tempo?
— Há alguns meses.
— E amanhã você vai simplesmente morar com ela?
— Vou.
Eszter respirou fundo.
— E como fica o apartamento?
A expressão de Gábor mudou. Foi apenas por um segundo, mas Eszter percebeu: uma satisfação estranha brilhou em seus olhos.
— Eu já resolvi isso.
— O que significa “já resolvi”?
Gábor tirou um envelope da bolsa e o jogou sobre a mesa. Eszter pegou os papéis. Precisou ler a primeira página duas vezes.
— Você vendeu a sua parte?
— Vendi.
— Metade do apartamento?
— Os meus cinquenta por cento.
— Para quem?
— Para uma empresa de investimentos imobiliários.
Eszter ficou encarando o papel por alguns segundos. O apartamento estava em nome dos dois, metade para cada um.
— Sem me avisar?
— Eu não precisava da sua permissão.
— Você poderia ter perguntado se eu queria comprar a sua parte.
Gábor deu um sorriso amargo.
— Com que dinheiro, Eszter?
Pelo tom da frase, ela entendeu tudo. Não se tratava apenas de conseguir dinheiro. Ele queria vingança.
— Você fez de propósito.
— O quê?
— Você sabia que, ao colocar um estranho como coproprietário, transformaria a minha vida em um inferno.
— Não dramatize.
Eszter folheou os papéis. A compradora era uma sociedade chamada Duna Property Befektetési Kft. Em seguida, viu o valor: trinta e dois milhões de forints.
— Você vendeu por isso?
— Eu precisava do dinheiro rápido.
— Gábor, este apartamento vale mais de cem milhões!
— Cinquenta por cento de uma propriedade compartilhada não valem metade do valor total do imóvel.
— Mas também não valem trinta e dois milhões.
Gábor deu de ombros.
— Para mim, foi o suficiente.
Nesse momento, Eszter teve certeza: ele aceitara fazer um péssimo negócio só para deixá-la em uma situação vulnerável. E sabia exatamente quando agir. Nos últimos seis meses, Eszter dedicara quase todo o seu tempo livre à mãe doente. Levara-a a consultas médicas, fizera compras e passara as noites com ela. Enquanto isso, Gábor reclamava constantemente de que ela não lhe dava mais atenção. Agora ficava claro como ele se consolava.
— Você quer que essa empresa me force a vender o apartamento — disse Eszter.

— Eu não quero mais nada.
Gábor pegou a mala. Na porta, virou-se uma última vez:
— Toda escolha tem consequências.
Eszter não respondeu. Só chorou quando ouviu as portas do elevador se fecharem.
No dia seguinte, ligou para sua prima Judit, que trabalhava em um escritório de advocacia em Budapeste. Encontraram-se à tarde. Judit analisou o contrato por vários minutos.
— Ele realmente podia fazer isso — concluiu.
— Eles podem me despejar?
— Não é tão simples. Mas o novo sócio pode pedir a extinção do condomínio. Se vocês não entrarem em acordo, o caso pode ir parar na Justiça.
— E o apartamento pode ir a leilão?
— Em certas circunstâncias, sim.
Eszter empalideceu. Judit, porém, olhou novamente para o contrato.
— Tem algo estranho aqui.
— O quê?
— O valor da venda.
— Também achei ridículo.
— Empresas assim compram partes problemáticas por um preço abaixo do mercado, claro. Mas esse valor é absurdamente baixo.
— O Gábor queria se livrar do imóvel logo.
— É uma possibilidade — disse Judit, pensativa. — Mas também pode ser que o comprador soubesse muito bem o que estava adquirindo.
Três dias depois, tocaram a campainha. Um homem de cerca de cinquenta anos estava à porta.
— Eszter Varga?
— Sim.
— Sou Tamás Sárközi. Represento a Duna Property Befektetési Kft.
Eszter ficou tensa imediatamente.
— Se vieram para comprar a outra metade do apartamento, não está à venda.
Tamás olhou para ela, surpreso.
— Não vim por isso.
Minutos depois, estavam sentados à mesa da cozinha.
— Nossa empresa realmente adquiriu os cinquenta por cento do seu ex-marido — explicou Tamás.
— Ele ainda não é meu ex-marido.
— Peço desculpas.
— O que vocês querem?
— Por enquanto, nada.
Eszter deu uma risada irônica.
— Vocês compram metade de um apartamento por trinta e dois milhões de forints e não querem nada?
— Por enquanto, não pretendemos solicitar a divisão judicial do imóvel.
— Então por que compraram?
Tamás fez uma pausa.
— Não posso responder a isso agora.
— Quem é o verdadeiro dono da empresa?
— Também não posso revelar.
Eszter se levantou.
— Então acho que terminamos por aqui.
Tamás fechou a pasta.
— Peço-lhe uma semana.
— Para quê?
— Para esclarecer algumas coisas.
— Por que eu deveria confiar em vocês?
O homem hesitou:
— Porque a pessoa que tomou a decisão de comprar não quer tirar este apartamento de você.
Eszter paralisou.
— Essa pessoa me conhece?
Tamás não respondeu. Assim que ele saiu, Eszter ligou para Judit:
— Quero saber quem é o dono dessa empresa.
Dois dias depois, no entanto, quem entrou em contato primeiro foi Gábor.
— Os compradores falaram com você? — a voz dele parecia nervosa.
— Falaram.
— O que disseram?
— Por que isso te importa?
— Porque eles me ligaram também.
Eszter se sentou.
— O que queriam?
— Perguntaram sobre a antiga reforma.
— Qual reforma?
— A de quando nos mudamos.
— E daí?
— Queriam saber detalhes da parede ao lado do escritório.
Eszter pensou a respeito. Quando compraram o imóvel, seu pai, László, ajudou na reforma. Ele tinha una pequena construtora em Kőbánya. Não era um homem rico, mas entendia de prédios antigos. Foi ele quem reconfigurou o corredor e construiu um dos armários embutidos. Falecera há seis anos.
— O que você respondeu?
— Que foi seu pai quem fez.
— Por que isso te deixa tão nervoso?
Gábor silenciou.
— Há algumas cláusulas no contrato de compra e venda… Se houver algum problema jurídico ou estrutural…
Eszter sorriu.
— Você teria que devolver o dinheiro?
— Não comece.
— Você mesmo disse: toda escolha tem consequências.
E desligou.
Naquela noite, Judit ligou:
— Descobri algo sobre a empresa. A Duna Property foi criada há apenas nove meses. O proprietário é outra empresa, que pertence a um fundo de gestão de ativos.
— Ou seja?
— Alguém ocultou intencionalmente a identidade do verdadeiro dono atrás de várias camadas societárias.
No dia seguinte, dois engenheiros apareceram no apartamento. Após Judit verificar a documentação, Eszter autorizou a vistoria. Eles mediram a sala, a cozinha, o corredor. Depois, um deles examinou demoradamente o armário embutido ao lado do escritório.
— Esta parede não é original — disse ele.
— Eu sei. Meu pai a modificou.
O homem pegou a planta original e mediu novamente.
— Tem algo errado. Pelos documentos originais, este apartamento deveria ter cerca de sete metros quadrados a mais deste lado.
Eszter olhou sem entender.
— Sete metros quadrados não desaparecem no ar.
O técnico bateu na parte de trás do armário. O som foi oco.
— Parece que desaparecem, sim.
Atrás do fundo do armário, encontraram uma abertura selada há anos. Dias depois, com a certeza de que não se tratava de uma parede estrutural, abriram o local com cuidado. Atrás, havia um pequeno cômodo estreito. Nada de joias, nada de dinheiro: apenas um armário de metal antigo, algumas prateleiras, ferramentas e três pastas com documentos cobertas de poeira.
Eszter reconheceu imediatamente a caligrafia do pai. Sentou-se no chão. A primeira pasta continha notas fiscais; a segunda, projetos de construção; a terceira, contratos. No topo de uma escritura pública, constava o nome da própria Eszter.
Judit chegou em menos de uma hora e leu os papéis duas vezes.
— Eszter… seu pai passou um imóvel para o seu nome anos atrás.
— Este apartamento?
— Não.
Onze anos antes, László comprara uma antiga oficina na rua vizinha. O imóvel incluía um pequeno quintal e uma fração ideal de um terreno considerado, na época, sem valor.
— Por que eu não sabia disso?
Judit apontou para a assinatura.
— Mas você assinou.
Eszter lembrou-se então. Sua mãe fora internada pela primeira vez naquela época. László chegara à noite com vários papéis: “São só uns assuntos antigos de imóveis para resolver. Assine aqui.” Ela leu na ocasião, mas sem dar atenção.
— Quanto vale isso? — perguntou Eszter.
Judit abriu o laptop.
— Há dez anos? Pouco. Mas agora a situação mudou totalmente.
Meses antes, o plano diretor do bairro fora alterado. A antiga oficina e a fração do terreno tornaram-se estratégicas para um grande empreendimento imobiliário residencial. A construtora já comprara a maior parte dos terrenos vizinhos, mas, sem a fração de Eszter, não podia unificar a área como planejado.
— Por isso estavam procurando os documentos — disse Judit.
— O Gábor sabia disso?
— Acho que não.
A resposta definitiva veio no dia seguinte, quando Tamás reapareceu, acompanhado por uma mulher de cerca de sessenta anos. Eszter a reconheceu na hora:
— Dona Éva?
Éva fora contadora de László por muitos anos. Eszter não a via desde o enterro do pai.
— Olá, Eszter.
Eszter olhou para Tamás:
— Foi por causa da senhora que compraram a parte do Gábor?
Éva se sentou.
— Em parte, sim. Seu pai me pediu um favor anos atrás: que eu ficasse de olho em você caso certas situações acontecessem.
— Que tipo de situação?
Éva fez uma pausa antes de responder:
— Você sabia que o Gábor tinha dívidas graves?
Eszter nunca soubera. Ficou sabendo então que, anos antes, Gábor perdera dinheiro em um negócio e acumulara empréstimos. László o ajudara duas vezes a pagar parte das dívidas, tudo sem o conhecimento de Eszter.
— Por que meu pai não me contou?
— Porque o Gábor prometeu que não se repetiria. Mas seu pai deixou de confiar nele no aspecto financeiro. Por isso passou a oficina e o terreno direto para o seu nome e deixou comigo uma procuração e estes documentos. Ele disse: “Se o Gábor um dia tentar usar a casa ou o patrimônio de vocês contra a Eszter, ajude-a.”
Eszter olhou para Tamás.
— Por isso vocês compraram a metade do apartamento.
Éva assentiu:
— Quando soube que o Gábor queria vender a parte dele rapidamente para investidores que caçam propriedades compartilhadas problemáticas, avisei o Tamás.
— Por que não me avisou antes?
— Porque eu não sabia se você tinha concordado com a venda. Precisávamos entender o que estava acontecendo primeiro.
Éva colocou uma minuta de contrato diante de Eszter.
— A empresa devolve a parte do Gábor para você pelo mesmo valor que pagou: trinta e dois milhões de forints.
Eszter sorriu com amargura.
— Eu não tenho trinta e dois milhões.
— Eu sei — disse Éva, apresentando outro documento. Era a proposta da construtora pela oficina e fração do terreno: 189 milhões de forints.
Eszter releu o número.
— Isso é sério?
— É a primeira oferta deles. E acho que você não deve aceitar de primeira.
Na manhã seguinte, antes das sete, o interfone tocou. Era Gábor. Eszter permitiu que ele subisse até o hall, mas não o deixou entrar no apartamento.
— Fiquei sabendo do terreno — disse ele.
— E daí?
— Precisamos conversar sobre isso. O valor aumentou durante o nosso casamento.
— Meu pai me deu de presente.
— Mas nós éramos casados.
— Isso não torna o imóvel seu automaticamente.
Gábor deu um passo à frente.
— Não precisamos nos divorciar como inimigos.
Eszter quase riu.
— Você diz isso?
— Eu errei.
— Você não errou. Sabia exatamente o que estava fazendo. Queria me punir. Vendeu metade do apartamento por uma merreca para uma empresa estranha achando que me colocaria na rua. E agora, ao saber que tenho algo valioso, quer resolver as coisas juntos?
Gábor baixou os olhos.
— Não tenho mais nada com a Nóra. Quando ela soube dos problemas com o apartamento e da possibilidade de eu ter que devolver dinheiro… disse que não precisava dessa complicação.
Eszter não sentiu triunfo. Sentiu apenas cansaço.
— Sinto muito.
Gábor olhou para ela:
— Sente mesmo?
— Sinto muito por ter levado tanto tempo para perceber o tipo de pessoa que você escolheu ser.
E fechou a porta.
Nos meses seguintes, Eszter agiu com calma. Contratou um advogado, fez avaliações independentes e negociou com três investidores. Recusou a primeira e a segunda propostas. Por fim, fechou negócio por um valor significativamente maior e, como parte do pagamento, recebeu um apartamento menor no novo edifício a ser construído.
Com parte do dinheiro, recomprou os cinquenta por cento do imóvel onde morava. Pela primeira vez em treze anos, apenas o nome de Eszter constava na escritura do apartamento.
Contudo, a lembrança mais marcante daquela fase não foi o dia da assinatura do contrato, mas uma tarde de domingo em que tomava café com a mãe na cozinha.
A mãe olhou ao redor e disse:
— Seu pai estaria muito orgulhoso de você agora.
— Por ele ter escolhido bem aquele terreno?
— Não — respondeu a mãe, segurando sua mão. — Ele passou a vida com medo de que, se faltasse, não haveria ninguém para proteger você. Mas ficou provado que você nunca precisou de um salvador.
Naquele momento, o celular de Eszter vibrou com uma mensagem de Gábor. Ela viu o nome na tela, não abriu a notificação e simplesmente virou o aparelho com a tela para baixo.
Por anos, pensara que aquele apartamento representava o casamento deles: o financiamento, as reformas, os Natais, as brigas e as pazes. Agora, significava outra coisa. Gábor vendera sua parte acreditando que tiraria a segurança dela, mas acabou desencadeando tudo o que a libertou. Se ele não tivesse tentado prejudicá-la, ninguém teria revisado as plantas nem encontrado o cômodo oculto.
Gábor estava certo em uma coisa: toda escolha tem consequências. Ele só não esperava que a sua decisão acabaria devolvendo a liberdade à mulher que ele pretendia punir.